Em julho de 2026, o USTR — o escritório do Representante Comercial dos EUA, equivalente americano de um Ministério do Comércio — fez um pedido formal ao Brasil durante as negociações bilaterais: reduzir a alíquota de 35% do Imposto de Importação sobre veículos fabricados nos Estados Unidos . O pedido entrou na pauta das rodadas de negociação de julho como um dos pontos prioritários americanos. As conversas travaram, mas o assunto não saiu de cena.
Para quem acompanha o mercado de importação de carros americanos, a notícia merece atenção — não porque uma mudança seja iminente, mas porque é a primeira vez em anos que a alíquota do II para veículos está explicitamente na mesa de negociações bilaterais com os EUA.
O que o USTR pediu exatamente
Segundo reportagem da CNN Brasil e da Agência Brasil, o USTR incluiu a redução das tarifas brasileiras sobre motor vehicles como um dos principais pedidos da rodada de negociações de julho. A alíquota atual de 35% é a máxima permitida pelo Mercosul para bens industriais — e os americanos a consideram excessivamente restritiva para veículos de fabricação americana.
O Brasil respondeu que o termo motor vehicles era amplo demais, abrangendo carros elétricos, híbridos, a combustão, veículos de passageiros e utilitários, e pediu que os americanos especificassem em qual subgrupo consideram os EUA mais competitivos. As conversas pararam nesse ponto — sem acordo até a data-limite de 15 de julho fixada pelo USTR para aplicação de tarifas recíprocas.
Por que o II de 35% importa tanto no custo total
O Imposto de Importação é a primeira alíquota aplicada sobre o valor do carro (FOB), e é a base de cálculo em cascata para IPI, PIS, COFINS e ICMS. Isso significa que uma redução no II não afeta apenas ele mesmo — reduz a base de todos os impostos subsequentes.
Para ilustrar, veja o impacto hipotético de uma redução do II de 35% para 20% em um Chevrolet Silverado 2019 avaliado em US$ 32.000, com câmbio a R$ 5,15:
| Cenário | II (R$) | Total desembarcado (R$) |
|---|---|---|
| II atual — 35% | R$ 57.680 | R$ 430.000 |
| II hipotético — 25% | R$ 41.200 | R$ 398.000 |
| II hipotético — 20% | R$ 32.960 | R$ 382.000 |
Uma queda de 35% para 20% no II representaria aproximadamente R$ 48.000 de redução no custo total desembarcado para esse veículo — sem qualquer mudança no câmbio ou no preço do carro. O efeito em cascata sobre os demais impostos é o que torna a alíquota do II tão relevante.
Por que o Brasil resiste e o que pode mudar
A alíquota de 35% protege a indústria automobilística instalada no Brasil — montadoras como GM, Ford, Toyota, Volkswagen e Stellantis que produzem localmente. Reduzir o II para carros americanos abriria precedente para outras demandas (China, Europa, Coreia) e poderia gerar pressão sobre empregos nas fábricas brasileiras.
O pedido americano ficou travado também por uma questão técnica: o Mercosul tem uma Tarifa Externa Comum (TEC) de 35% para veículos, e o Brasil não pode reduzi-la unilateralmente sem aval do bloco. Qualquer concessão para os EUA exigiria negociação em nível Mercosul — o que torna uma mudança rápida improvável.
O que acompanhar nos próximos meses
As negociações Brasil–EUA continuam com novas rodadas previstas para o segundo semestre de 2026. Os pontos a monitorar:
- Acordo setorial específico para veículos elétricos — os EUA têm interesse particular em exportar EVs (Ford, GM, Rivian) ao Brasil. Uma alíquota diferenciada para elétricos americanos é mais plausível politicamente do que uma redução geral.
- Tarifaço recíproco americano sobre produtos brasileiros — se as negociações quebrarem e os EUA impuserem tarifas sobre exportações brasileiras, a resposta do Brasil pode incluir contramedidas, o que reduziria o apetite por concessões no setor automotivo.
- Reforma da TEC no Mercosul — há discussão no bloco sobre revisão das alíquotas para eletrônicos e veículos. Uma mudança na TEC abriria espaço para o Brasil ceder sem violar as regras do Mercosul.
O que isso muda para quem quer importar agora
No curto prazo: nada. A alíquota de 35% segue em vigor e não há previsão concreta de redução. A recomendação para quem está avaliando uma importação em 2026 é não esperar por uma mudança de política que pode não acontecer dentro do horizonte de planejamento.
No médio prazo, vale acompanhar o desfecho das negociações. Se um acordo setorial para elétricos americanos avançar, pode haver uma janela específica de alíquota menor para EVs — o que alteraria significativamente o custo de modelos como Ford F-150 Lightning, Rivian R1T e GM Silverado EV.
Enquanto isso, as variáveis que o importador controla — câmbio, escolha do porto, estado de destino e despachante — continuam sendo as alavancas mais eficazes para reduzir o custo total. Simule na calculadora com diferentes estados e câmbios: a diferença entre os cenários sob controle do comprador já supera qualquer redução realista de II nas próximas negociações.
